Covid, covidamento.. covidámedo …

A mais notável e premente transformação civilizacional imposta pelo Covid-19 à sociedade contemporânea é o desconcerto da planificação metódica.

 .. O covidámedo !..

Os jogos olímpicos foram adiados, as ligas de futebol interrompidas, projectos bélicos adiados e, o que é mais problemático, etapas de produção e lançamento de produtos industriais ficam alterados.
Na Bélgica, houve um desperdício de toneladas de flores, deitadas fora. Uma grande consequência do confinamento social e da
fuga aos afectos tácteis
imposto pelo Covid é a premência da força interactiva da Internet, a outra mão invisível das carícias à distância.

É isto o Covid…

Um vírus sem chapéu na mão, que não nos faz nenhuma vénia à chegada.

Chega, entra nas gargantas dos incautos e depois arrasa-lhes os pulmões. E sem ar, ninguém vive. Esta a grande lição natural que o Covid nos ensina: valorizar o ar que respiramos. Combater a poluição atmosférica e o desmatamento.

O Covid é como a visita do chefe de Estado a um hospital.

No dia da visita, as camas estão limpas, com lençóis a cheirar a máquina de lavar, o pessoal médico e para-médico todo ele perfilado de batas impecáveis, que maravilha de hospital nós temos em Angola.

E então nos perguntamos: porque é que o Covid não fica já aqui connosco ?

   .. O covidámedo ?..

Pela primeira vez, o Executivo pensou de verdade na fome dos que só vivem da zunga diária, pela primeira vez pensou em levar água de cisterna aos bairros (já que a água e a luz são os grandes mitos da nossa governação, a

o ponto de parecer que este sector é possível ser gerido apenas pelas eternas cisternas e geradores e pelo insustentável discurso do ministro da Energia e Águas), pela primeira vez em 45 anos,

o Governo foi obrigado a pensar povo.

Graças ao Covid.

Mas não nos iludamos.

A proclamação do estado de emergência, as medidas sociais e toda a panóplia de medidas sanitárias sóaconteceram porque, pela primeira vez na vida angolana,

FOLHA 8 : Consulta apenas de rotina ?.. impede presenca do Ex-PGR João Maria de Sousa, no Tribunal Provincial de Luanda …

os dirigentes estão impedidos por lei de irem se tratar lá fora. 

Pela primeira vez na vida angolana, os dirigentes estão aqui connosco, a respirar o mesmo vírus, sujeitos à infecção. Doutro modo, não teríamos tal preocupação com os desvalidos.

Sempre este Executivo se distanciou do Povo, priorizando os recursos para a Defesa e Segurança, mesmo que tivesse saído da boca do segundo presidente do MPLA a palavra:

O mais importante é resolver os problemas do Povo

 

Do Covid deriva o covidamento.

Cada um, cada família remetida a um isolamento imposto por uma lei, como mandam as regras do Estado de Direito. Cada um de nós não se isola só dos outros. Isola-se em si mesmo.

Começamos a pensar nas coisas todas que acumulámos durante uma vida.

Carros, roupas, dinheiro no banco, bens que não afectam directamente a nossa sobrevivência primária, as viagens de luxo, o pecado da gula que obriga os nossos irmãos, mais novos e mais velhos, a vasculhar os contentores de lixo, enquanto exibimos uma barriga proeminente, e principalmente os ódios,

as raivas, os ressentimentos duradoiros, com realce para os ressentimentos políticos que atrasaram a felicidade dos angolanos.

.. “O mais importante é resolver os problemas do Povo”…

E aqui confinados ao covidamento alguns perguntarão: para que nos serve tudo isso ? Como arejar a nossa vida, a nossa sociedade, para que o sofrimento das massas não seja tão visível, tão “normal” em tempos de rotina e agora se manifeste tão anormal e perturbador ?

A imposição do estado de emergência é um fenómeno natural. É de elogiar. Proclamado no tempo certo e na medida do possível num país que não produz uma única vacina nem sequer uma lâmina de barbear ou uma agulha de coser, que não tem pesquisadores nas academias, e que tem milhões de cidadãos e viver em condições de anti-covidamento estrutural.

Em hipótese alguma, uma família monoparental a viver num anexo de um quarto alugado por 5 mil kwanzas, num quintal do Sambizanga, vai conseguir cumprir com as normas impostas pelo estado de emergência.

O presidente da República sabe disto, os ministros sabem disto, os deputados também, a própria mãe de família sabe que isso é uma utopia, por isso é que a polícia nem faz aparição ali na Luanda profunda.

Existe a lei e existe a realidade forjada durante os últimos 18 anos de paz que nenhum dirigente teve a coragem de assumir e reverter drasticamente, antes que o Covid surgisse na China.

É ver como a tónica principal do discurso estadual, desde 2017, se insira na luta contra a corrupção e não tenha sequer utilizado a palavra zungueira, primeiro alvo da operação transparência aqui em Luanda.

A terceira palavra nova derivada do Covid é o covidámedo

O medo de uma propagação comunitária do animal unicelular que possa atingir o grupo dominante e fazer uma coisa que nem os dissidentes, nem os revus, nem as vozes críticas do jornalismo, tão pouco a oposição armada, conseguiram, ao longo destes 45 anos: desestabilizar e até mesmo, destronar o poder imposto pela pseudo-legitimidade da luta armada.

Ou até instaurar o caos social.

Este é o medo real mais pomposo e generalizado que afecta não só a grande burguesia, mas toda a população.

Aqui em Angola, onde pouco se produz no sector industrial e quase tudo se importa, surge o receio de a indústria externa, de onde nos vem a carne, os detergentes, as peças automóveis e a manteiga e o arroz, não ter capacidade de nos abastecer.

Contudo, a esperança ainda e sempre é maior que o medo

Já há a esperança de uma vacina no ar, para daqui a três ou seis meses. As economias mais poderosas esperam relançar a produção e – para quê nos enganarmos? – aqui em Angola, as coisas nem sequer chegaram a parar conforme previa a ordem assinada por Sua Exa. Presidente João Lourenço.

A economia informal nunca parou.

Se tivesse parado, o povo morria de fome.

Portanto, por mais que elogiem as medidas impostas legalmente e a acção emergencial do Governo, o que nos está a salvar é mesmo o ar quente que respiramos, os mais de trinta graus centígrados à sombra é que parecem ser o grande milagre, o grande anjo guardião dos angolanos.

De todos nós.

Multimilionários, ricos, pequeno-burgueses, intelectuais proletários, camponeses, polícias, militares, todos.

E é por isso que já é altura de nos pensarmos de maneira diferente, anti-partidária, ressentida com os anos passados, uns a comer e outros a vegetar.

 .. vieram nos ensinar que a mentira tem pernas curtas …    a mentira tem pernas curtas …

 

Acima de tudo, o Covid e as suas derivações morfológicas vieram demonstrar que os tempos são outros, vieram nos ensinar que a mentira tem pernas curtas e que é preciso,

.. destronar o poder imposto pela pseudo-legitimidade da luta armada …

de uma vez por todas, colocar limites à imoralidade política do Estadoa favor de nova forma de unidade nacional, assente no respeito pela vida humana de todos e qualquer um de nós.

  .. limites à imoralidade política do estado …   .. limites à imoralidade política do estado

Uma unidade verdadeira que saia para fora dos ditames do mero discurso para boi adormecer e do mito político.   

 

José Luís Mendonça

 

Partilhar este artigo

Mise en forme jinga Davixa

 

José Luís Mendonça
Jornalista, escritor e professor de língua portuguesa. Actualmente é consultor da Edições Novembro, na qual foi, durante sete anos, director do quinzenário Cultura.
Em 2019, refundou o Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, criado em Luanda, em 1948, e desenvolve projectos de fomento da leitura e da aprendizagem da língua veicular nas escolas e junto de organizações juvenis.

 

RÉPRESSION : un opposant dénonce en angola,.. des méthodes qui rappellent l’apartheid…

“Angola Amordacada ” l’Angola Bâillonnée – muselée- Domingos da Cruz

CABRITO-CRACIA : .. João Lourenço avisa que luta contra corrupção vai continuar apesar da « resistência organizada » …

DITADURA : .. HELENA TEKA, OS FACTOS E OS CRIMES … – Rui Verde

FAMINE : ..Si Cunene est L’Angola,.. alors Joao Lourenço est un Menteur !..

WILLIAM TONET : .. Combate à corrupção em Angola “é um engodo” …

ANGOLA : Reportagem do New-York Times sobre Angola … (video..)

ANGOLA : QUI NE VIT PAS POUR SERVIR,… NE DOIT PAS SE SERVIR POUR VIVRE !…

DEMOLIÇÕES EM VIANA : O LOBO NA PELE DE CORDEIRO – PARTE II …

http://lava-jato.com/wp-admin/post.php?post=6124&action=edit

CABRITISMO : ..Governantes de Angola acusados de ..” Criminosos” .. (video..)..

LAVA JATO : “Tarde ou cedo, são eles que acabarão na cadeia”… – Rafael Marques –

WILLIAM TONET : .. Combate à corrupção em Angola “é um engodo” …

SANTÉ : 3 À 5 enfants meurent tous les jours, à l’hôpital pédiatrique, David Bernardino à Luanda…

ANGOLA : Droit à la Santé et Crimes contre l’humanité …

DROITS DE L’HOMME : .. un fardeau qui s’appelle,.. JOAO-MARIA de SOUSA …

DITADURA : .. HELENA TEKA, OS FACTOS E OS CRIMES … – Rui Verde

CABRITO-LEAKS : .. Isabel dos Santos hospitalizada com PNEUMONIA … (em Russia…)…

DITADURA : .. OS GOVERNANTES,.. DEMOLIÇÕES DE VIDAS, NENHUM REMORSO – PARTE I …

ZENÚ ? : A Corrupcao mata…

ABUSE OF POWER IN ANGOLA (PART I): HOW THE MPLA ELITE CLEARS LAND FOR THEIR OWN USE …

ANGOLA : Ces « Messieurs », seraient déjà démis de leurs fonctions, et arrêtés ! (dans certains pays occidentaux… ) – II

WILLIAM TONET : .. Combate à corrupção em Angola “é um engodo” …

DITADURA : .. HELENA TEKA, OS FACTOS E OS CRIMES … – Rui Verde

DICTATURE : Le président du Parlement « NANDÓ »  veut en finir avec les réseaux sociaux en angola…

“Angola Amordacada ” l’Angola Bâillonnée – muselée- Domingos da Cruz

WILLIAM TONET : .. Combate à corrupção em Angola “é um engodo” …

FOLHA 8 : Consulta apenas de rotina ?.. impede presenca do Ex-PGR João Maria de Sousa, no Tribunal Provincial de Luanda …

   Send article as PDF   
Abril 20th, 2020 Por
Partilhar
Partilhar